26.1.10

Palavras






"Palavra eu preciso
Preciso com urgência
Palavras que se usem
em caso de emergência
Dizer o que se sente
Cumprir uma sentença"
Palavras - Titãs






Há quem diga que depois de proferidas elas não voltam atrás. Eu sei que elas são capazes de conquistar, de dominar, de mudar o curso do rio de uma vida. Mais ainda, elas são capazes de Reconquistar, elas não voltam atrás, mas trazem de volta, promovem o retorno. E isso é mágico. Porque no fundo não importa em que ponto erramos, em que ponto calamos, em que ponto proferimos a palavra errada. Sempre haverá a oportunidade de voltar e tentar dizer as palavras certas. Poderia discursar durante milênios, esmiuçar cada vertente positiva que possuem as palavras bem ditas, na hora certa e pra pessoa certa. Poderia falar também daquelas que ficam engasgadas, das que dificultam a respiração. Ou poderia me ater as não ditas, aquelas que engolimos regadas a sal grosso. Mas meu olhar está sobre aquelas, que foram ditas na hora certa, pra pessoa certa, da maneira certa e sagram. Sagram o coração de quem ouve e dilacera a boca de quem profere. Aquelas que contrariam a física, que insistem em triturar a língua e se recusam a ir embora. Elas são ardilosas, invadem os ouvidos, se alastram na corrente sanguínea, ferem o coração, e alojam -se no pensamento sem prazo de permanência. Elas são incoerentes porque apesar de suas consequências dolorosas, são ditas para pessoas que temos um apreço imensurável. E foi assim, disse porque era o melhor que podia fazer, era o mínimo que ele esperava e merecia de mim. Ele provavelmente ignora o desastre que abrigava meu ser, desenhado com navalha a cada palavra dita. Certamente não imagina cada gota de sangue extraída da minha traquéia. Não pode ver, com seus olhos já marejados, os meus sendo invadidos por um mar revolto. E no fim, quando foi embora sonhando em digerir cada palavra que o havia invadido, como um anjo caído eu me encolhi. Não me preocupei em estancar o sangue das minhas feridas, baixinho desejei estar do outro lado, desejei ter me calado, desejei ter percebido o exato momento em que aquela conversa teria começado. Conclui que poderia ter sido diferente. E o único ungüento que eu possuía era a ciência de que dei o meu melhor. A certeza de que escolhi a palavra mais indolor (como se fosse possível). Sabia que foi como deveria ser. Almejei que o tempo corresse. Mas eu estava sangrando, com as minhas próprias palavras, ditas no momento certo, da maneira certa e pra pessoa certa.

22.1.10

Fica combinado



"Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é prá te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem..."

Tatuagem - Chico Buarque






Você se veste de iniciativa e eu me dispo do orgulho.

Eu fecho os olhos e você os beija.

Você abre os braços e eu me aconchego no seu calor.

Eu sonho e você materializa.

Você tranca e eu jogo a chave fora.

Eu mareio e você navega.

Você toca e eu ardo.

Eu entrelaço e você perpetua.

Você passeia com os dedos nas minhas costas e eu beijo seu sorriso.

Eu me perco e você procura.

Você chama e eu corro.

Eu escondo e você acha.

Você acende e eu incendeio.

Eu juro e você promete.

Você sussurra e eu suspiro.

Felicidade


"A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranquila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor"



Dia desses, uma brisa tocou sutilmente minha face. Ela veio bem leve, caminhando em passos de anjos, tocou-me com mãos de seda.

Rapidamente pude perceber que a brisa, era a tão esperada Felicidade.

Inocentemente, havia concluído que ela só se apresentava fazendo estardalhaço, anunciando com fogos de artifícios a sua chegada.

Mas dessa vez, incoerentemente ela me surpreendeu. Ela é sempre bem vinda, mas dessa vez ela vinha em um novo traje. Não usava seus costumeiros vestidos cor de arco-íris. Ela vinha com um vestido dourado reluzente e um pingente em forma de trevo de quatro folhas, na cabeça uma tiara cravejada de diamantes.

Na sua bolsa, ela carregava sorrisos, abraços, olhares, um frasco bem cheio de lágrimas emocionadas e uma caixinha trancada.

Sorrateiramente ela me abraçou e disse-me ao pé do ouvido, que aquela vestimenta era usada em momentos especialíssimos. Ela era necessária toda vez que era chamada para se alimentar de compartilhamentos de alegrias.

Proferiu, com sua voz de veludo, que esse banquete só poderia acontecer se houvéssemos plantado verdadeiros amigos, amores e cúmplices. E me explicou minusciosamente é que ele jamais pode ser planejado e nunca sabemos de ante-mão quem ocupará  cada lugar da mesa.

E foi assim, num dia em que eu gozava de uma alegria proveniente de uma conquista, a Felicidade chegou, e como boa anfitriã ajeitou a mesa, colocou os lugares caprichosamente, e serviu o banquete mais delicioso que eu tive o prazer de degustar.

Os lugares foram ocupados pelas pessoas especiais da minha vida, e também pelas pessoas em que eu sou especial. Alguns foram ocupados por quem que eu nem imaginava, mas que deram um brilho especial na mesa. Outros, que havia destinado para alguns, não foram preenchidos, e no decorrer do tempo misteriosamente não eram mais visíveis.

Com a mesa completa, e iluminada (não pela roupa ou pelos diamantes, mas pelas presenças) ela se aproximou de mim, e me entregou a bela, pequena e frágil caixinha. Dentro dela estava a lembrança daqueles que foram especiais e extremamente amados, que já não habitam entre nós, mas se acochegam calorosamente dentro do meu coração.

Foi uma noite especial. Mais do que eu poderia supor. Rapidamente algemei aquele momento no meu pulso, decidi sem pestanejar que ele iria me acompanhar para sempre.

Antes de ir embora, ela colocou em meu pescoço o pingente de trevo. Disse-me que era pra eu lembrar que a felicidade só pode vir em seu traje de gala, pra quem tiver a sorte de ter por perto a presença dos que amamos e que gratuitamente retribuem este sentimento.

E ela foi embora, mas deixou um gosto único, o gosto de compartilhar alegrias, de dividir momentos e o de ser extremamente feliz!!!

7.1.10

Vamos dançar??



"Eu sou o predador mais perigoso que jamais existiu. Tudo em mim é convidativo: minha voz, meu rosto, até o meu cheiro, como se fosse preciso (...) como se você pudesse fugir de mim ou lutar comigo (...)"
Edward Cullen - Crepúsculo





Não sei se é por causa dos nossos beijos regados a super bonder, ou se devo atribuir a sua perfeita habilidade de se inscrever nas linhas do meu corpo através da sua barba semi-serrada.

Poderia, sem hesitar, apostar que os moldes do seu ombro foram os mesmos que desenharam o formato do meu crânio. 

Adoro navegar nas ondas produzidas pelo arfar do seu peito. 

Desconfio, que em algum momento, certamente mágico você se transformou em meu predador perfeito. 

O fato é que avassalada pela Síndrome de Estolcomo, serviria todo meu sangue para você em uma taça de cristal. 

Estranho desejo que se configura na arcaica metáfora do predador e vítima, caça e caçador. 

Quanto mais eu recuo, mais você me fareja. 

Desconfiado do odor latente , estrategicamente se afasta. 

Afastando, mais você me atiça. 

Atraído pela sede de me possuir, movimenta-se em passos lentos. 

Entorpecida pelo clima ameaçador do ambiente recuo. 

Nessa eterna dança do acasalamento, somente você pode me conduzir. 

Por mais que as minhas atitudes revelem que invisto toda a minha energia para descobrir um abrigo seguro, eu quero mesmo é ser rendida, dominada, degustada. 

E eu sei que você não vai desistir até suprir sua fome de mim. 

Ainda bem...

4.1.10

Caio Fernando de Abreu





"Não era bom, nem mau. Era apenas perfeito."