31.1.13

Sobre o Outono

"Life goes on
It gets so heavy
The wheel breaks the butterfly
Every tear, a waterfall
In the night, the stormy night
She'll close her eyes
In the night
The stormy night
Away she'd fly"



Então é outono!

Sinto minhas histórias contadas em folhas secas,  e eu não tenho forças mais pra segura-las.

Meus  galhos  já estão secos e fracos.

É tempo de se render, permitir que o vento leve as folhas já agonizantes que eu lutei tanto para manterem-se no verão.

É outono na minha alma, e tão pastel  quanto a cor é a palidez que reveste meus galhos, permitindo o desnudamento completo de histórias que já não encantam mais.

Eu já não sinto tanto frio, mas me falta o calor das emoções.

A seiva latente que dava cor, vida, frutos, foi preenchida por um tronco oco.

Eu estou cansada, como nunca.

E não fosse as raízes tão profundas e já rígidas, talvez poderia transformar-me num pássaro, daqueles ceifadores, que levam no bico a semente de uma nova vida.

Do alto, avistaria um terreno novinho, fértil...

Pousaria ali, expondo minha fragilidade, enterraria aquela semente e regaria diariamente, até poder reconstruir-me.

Mas estou cansada, de tudo que se encontra no Futuro do Pretérito.

Cansada de frases que não formaram a poesia.

Não vou mais lutar pelo que não quer ou não pode ser.

Cada folha que o vento  me leva, dói.

Dói, porque arranca cada sonho seco pra longe.  

E dói, porque os que passam pisam neles, e eu queria recolher, guarda-las, impecáveis.

E num eterno dilema entre recordar e esquecer, eu me permito, com o olhar fosco, desfolhear.

E aceito que vai doer a cada folha , até eu perde-las de vista, até minha memória embaçar, e eu esquecer o som dos sorrisos que causei, dos olhares que despertei, dos amores que eu plantei...

E dói. Dói como nunca.

Dói como acordar de um sonho bom.

Dói como a saudade que não finda.

Lateja com o que poderia ser.

Murcha de decepção da esperança de uma primavera constante...

E resta a certeza, de que esse outono, vai moldar todo o resto da minha existência. 

Eu amei até esvair meus sentidos.

Até ficar inconsciente.

Até contrariar a lógica das coisas.

As folhas são levadas, as flores arrancadas, os frutos caem, e árvore continua  a mesma.  

E meu adubo é amar, amar sem medidas.

E minha seiva é sentir.

É preciso despedaçar-se, despedir-se de você do Outono,  rumo ao Pretérito do Perfeito.

2.1.13

Escrito Catártico

"Tem dias que a gente se senteComo quem partiu ou morreuA gente estancou de repenteOu foi o mundo então que cresceu...A gente quer ter voz ativaNo nosso destino mandarMas eis que chega a roda vivaE carrega o destino prá lá ..."


Então é isso!

Pois bem, ninguém me prometeu que seria fácil, mas não me disseram que seria tão difícil.

Viver é para os fortes, já escutei isso em algum lugar...  

De qualquer maneira, sempre achei que fosse uma frase de efeito, prelúdio de um final certamente feliz.

É, desses que a gente cresce lendo em contos de fadas, filmes românticos, livros. 

Ao que tudo indicava, existiam forças, acasos, destinos que como uma mágica nos encaminharia ao lugar certo.

Eu já não acreditava em contos de fadas.

Acreditava na força do vento que trazia e levava histórias, pessoas, amores para a minha vida.

Pra mim o vento, era a linguagem dos deuses, e foi assim durante muito tempo.

Desde menina, muitas respostas, escolhas, decisões  foram tomadas depois de muito tempo observando as folhas das arvores balançando.

E o tempo foi passando e aprendi com as árvores que a vida é incerta, que as vezes o vento se cala, e que o único balanço que a gente deve escutar é o do nosso coração, do sangue pulsando nas veias.

E segui assim, escutando o coração, sendo fiel , leal e sincera, acreditava que desse jeito não tinha como dar errado.

E foi assim na primeira pancada, na segunda, na terceira, até que perdi as contas. 

Me despedacei inteira e ainda näo consegui  reconstruir...

O que eu não tinha entendido ainda, como a fórmula coração+fidelidade+lealdade+sinceridade não estava dando o resultado esperado. 

Essa equação só me deixava mais vulnerável.

Enquanto eu tentava entender, com o coração sangrando, sendo fiel ao que eu acreditava, sendo leal na minha conduta e sincera com os que me rodeavam, uma tempestade me jogou a léguas pra um lugar escuro, frio e sozinho.

Eu sangrei sozinha, durante um bom tempo, me recusando a abrir mão das virtudes mais preciosas que eu julgava ter.

Não me importava em ser vulnerável, eu queria a viver sem amarras, queria poder amar, queria poder ser correspondida, queria o sorriso retribuído e a mão estendida.

Se o preço de viver, era estar sujeita a sangrar até meu corpo se esvair, eu estava disposta.

O problema é que no campo de batalha que é a vida, eu só estava vendo corpos caídos pelo chão, soldados desertores se escondendo em armaduras de ferro, que mantinham seu coração frio e gelado, e tendo como guia somente a razão.

E foi aí que eu achei que seria interessante botar uma pitada de razão na minha fórmula “mágica”, e também não funcionou. 

Porque a minha razão ainda dizia que o certo é lutar pelo que se acredita.

Só que não me parecia muito certo, minha fórmula pronta, bem temperada e eu ali lutando por pessoas que eram incapazes de lutar por si próprias.

E eu estava esquecendo de lutar por mim.

E chegou nesse ponto da vida, que a gente precisa fazer escolhas, naquele momento cruel, em que se empacota os contos de fadas, guarda os filmes, esquece os livros, engole a lágrima , veste a armadura e deixa o sangue vermelho vivo mais fosco.

Era uma questão de sobrevivência, abrir mão do que era o mais bonito em mim e viver.

Afinal de contas, viver é para os fortes.

E ninguém quer saber de uma mulher que carrega na alma os olhos de uma menina que ainda vê o melhor do mundo.

A vida não perdoa, o tempo não colabora, as pessoas não se importam na mesma medida, e você não tem outra opção.

Vai ser difícil uma tempestade me derrubar novamente.

E vou sentir falta de tudo que poderia ter sido diferente se você tivesse me estendido a mão e lutado por mim assim como eu estava disposta a lutar por você.

O Nós ainda é mais sonoro do que o só.

E sozinha, eu tenho tempo para me fortalecer, enfrentar, e esquecer.

E eu vou sentir muita falta da mulher com alma de menina que eu deixei para trás.

E amanhã, uma cicatriz vai ser capaz de contar uma história.

E eu ainda vou ter esse vazio imenso, de algo soterrado dentro de mim, isolado, aonde só serei capaz de visitar numa madrugada fria de uma quarta-feira qualquer.

Espero ser capaz de escutar o barulhinho bom dos nossos sorrisos compartilhados, do bater insano no meu peito, dos segredos , do medo e daquela sensação boa de estar perto de você.