22.3.10

Do outro lado


"Toda pedra do caminho
Você pode retirar
Numa flor que tem espinhos
Você pode se arranhar
Se o bem e o mal existem
Você pode escolher
É preciso saber viver"




Algumas coisas nunca mudam. 

Infelizmente. 

E de tão constante, torna-se oportuno. 

Andamos com as próprias pernas,construímos com nossas mãos e semeamos no terreno que escolhemos. 

Se o fazem por nós, é diante a própria permissão.

Surpreende-me a malícia de um poltrão, ao despejar o fracasso de sua vida, em mãos alheias.

Nada é mais ardiloso, cruel e iníquo do que sentar sobre ruínas de um castelo alucinado, lamuriar-se, enquanto lava suas mãos com lágrimas vertidas de outros olhos. 

Contemplo, atônita, a revolta se instalar num corpo que prima pela inércia.

Chega a ser degradante observá-lo utilizando  toda a sua força agarrado a mão estendida, para trazê-la para junto de si ao invés de erguer-se.

É triste ver  seu esforço sobrehumano para transformar em degraus as muletas da vida. 

O seu espelho já não reflete o menino que é e nem de longe o homem que diz ser.

Quanto tempo ainda ele vai precisar para compreender que somos unicamente responsáveis pelas nossas escolhas e concomitantemente com os efeitos provenientes dela. 

Até quando vai exigir daqueles que o amam que reconstruam um lugar que sediava festas das quais eram vetados de participar. 

Isentar-se da culpa é tão inútil quanto  vitimar-se. 

De tudo, gostaria que ele compreendesse que não se estanca o sangue de suas escaras causando ferimentos alheios. 

Enquanto, direciona sua latente e poderosa energia para obter uma compaixão claramente desnecessária, despreza as virtuosas sementes e o terreno fértil que o rodeia. 

Entorpecido de auto-piedade, priva-se de beber do raríssimo néctar que possui. 

E aqui, do outro lado, com os olhos marejados, é tão claro que ele seria esplêndido em qualquer coisa que se propusesse fazer. 

Estarrecida, sou testemunha do seu esforço inútil de construir um exercito que lute em prol de sua guerra pessoal. 

Ele ignora que para construir este exercito é necessário a renuncia pessoal dos combatentes.

Desconhece que os inimigos que persegue se abrigam dentro dele. 

Onipotente, exige dos outros o que nem Ele se deu. 

Resta em mim, uma tristeza, uma ausência de atos diante do cenário que ele me apresenta.  

Eu tenho meu caminho a seguir, e sinto não poder esperá-lo. 

E, movida pelo amor, desejo que seja capaz de romper seu casulo antes que ele apodreça suas asas. 

18.3.10

Boa Sorte.


"É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte
Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará"


Ela lhe desejou 'Boa Sorte'. 

Era o único desejo que restava em sua prateleira. 

Já havia desejado, mais do que deveria, os beijos, o abraço, o corpo, o toque, o olhar, o entrelace.

Embriagou-se com muitos frascos de um louco desejo pela ausência da presença dele nela. 

Ele rompeu as invisíveis cortinas da inércia e embalado pela reciprocidade, denunciou-se. 

Sem perceber deixou escapar pelos seus poros o desejo há muito contido. 

Sorrindo, Ele ofereceu-lhe um momento. 

Ela almejava por uma overdose. 

Novamente Ele ofereceu-lhe muito pouco, achando que era muito.

Talvez porque ignorava o muito que Ela pode e quis lhe oferecer um dia. Talvez nunca fosse capaz de corresponder a altura. 

Muitas vezes, Ela apostou suas fichas, na convicção de que Ele sentia mais do que deixava transparecer. 

Ainda portava a convicção , mas não tinha mais fichas. 

Ela sentiu a emoção da aposta. 

E Ele concentrou-se no sigilo de suas cartas e nas jogadas friamente calculadas.

Acabou sozinho no jogo.

Ela abandonou a mesa. Desejou-lhe 'Boa Sorte'. 

E Ele não percebeu, que a sorte a acompanhou quando Ela se levantou. 
Desta vez, p
rotegida pela certeza, não foi chicoteada pela dúvida. 

O sorriso ataviava novamente seu rosto. 

Não ganhou o jogo, mas carregou consigo a lembrança dos bons momentos. E isto bastava.

Aprendeu a digerir seus desejos com um certa destreza, uma rapidez alucinante. 

Mas aquele desejo de querer bem a Ele... Ah!....esse Ela não digeriu, incorporou.

Esse desejo navega diariamente por suas veias, com as velas hasteadas. 

É. Ela disse 'Boa Sorte'. 

Ele não compreendeu a magnitude de seu desejo.

Ela virou as costas, explorou novamente sua prateleira. 

E ali, no fundo, esquecido, jazia caído, conservando sua alta temperatura, um atraente frasco vermelho sangue...

Cuidadosamente, Ela resgatou o frasco. 

Era o desejo de que Ele segurasse sua mão e a pedisse pra ficar. 

Ele novamente não soube surpreende-la.

Ele virou as costas...esperando que Ela pousasse sobre seus ombros aquelas mãos que tanto sentiu falta.

Ela fechou os olhos e cerrou a porta obciamente.

4.3.10

Imprevisto

“Te ver e não te querer
É improvável, é impossível
Te ter e ter que esquecer
É insuportável, é dor incrível...”


Já faz algum tempo. 

Tempo suficiente para que eu me surpreendesse com o repertório de sensações que me invadiram na sua rotineira presença. 

Repentinamente, desviei o olhar, mirei suas mãos e fui capaz de senti-las passeando no meu corpo. 

Enquanto você discursava seriamente, a vibração da sua voz grave fez meu corpo se arrepiar com a lembrança dos seus sussuros. 

Num reflexo, mordisquei meu lábio inferior, enquanto salivava pelo seu. 

Suspirei desejando que seus olhos se virassem para mim novamente. 

E você sorriu aquele meu sorriso predileto, que surpreendentemente fixava seus olhos nos meus, até que eu me entregasse completamente... 

Inclinei meu rosto ruborizado, inteiramente derrotada, decididamente rendida e primordialmente sedenta...

3.3.10

Pequenos desejos tortos


"Quero tudo ter, estrela, flor, estilo
Tua língua em meu mamilo água e sal"



Quero bordar sonhos e traçar encontros.


Quero fitar a essência e diluir a ausência.


Quero ver a rotina ousar e a bailarina desengonçar.


Quero silenciar o grito e tocar o extinto.


Quero solidificar o derretido e permitir o proibido.


Quero ver a cigarra trabalhar e a formiga cantar.


Quero estrelar o dia e chorar de alegria.


Quero desafinar a sincronia e encantar a magia.


Quero ver a tristeza chorar e o rio tocar o mar.


Quero segurar o toque e suavizar o choque


Quero enfatizar o discreto e desvendar o secreto.


Quero ver a lágrima evaporar e a saudade findar.

1.3.10

Sobre o que restou...

"A vida vai seguir
Ninguém vai reparar
Aqui neste lugar
Eu acho que acabou"


Estava nublado, quando me percebi sozinha.

Em meio aos escombros, após os abalos sísmicos e o temporal, eu observava o tamanho do desastre. 

Não sei ao certo quanto tempo prendi minha atenção, concentrei meus esforços e direcionei minhas energias tentando reconstruir o meu pequeno castelo. 

E agora, perplexa, constatava que enquanto eu tentava insistentemente reconstruir o pequeno cômodo que cedia às intempéries da vida, o restante desmoronava inaudívelmente atrás de mim. 

Nada mais habitava aquele lugar. 

Fitei minhas mãos, precocemente inábeis, encobertas de pó. 

O jardim que outrora se apresentava suntuosamente ornamentado de amores-perfeitos, estava soterrado. 

As gargalhadas, trilha sonora original do meu reino, já havia silenciado. 

Nada mais restava fazer, não havia um só tijolo intacto.

Calmamente, me levantei e com cuidado indispensável procurava não pisar sob meus sonhos destroçados.

Flagrei-me desejando não possuir, naquele momento, olhos. 

De nada adiantou cerrá-los, as imagens haviam sido marcadas a ferro e fogo na minha alma fraturada. 

E me entristeci com a semelhança do meu coração com aquela paisagem.

Não pude conter as lágrimas tão necessárias, em que eu meticulosamente afogava todos os sonhos, todos os desejos, todas as lembranças e cada mera expectativas que agonizava lentamente dentro de mim. 

Estava feito. 

Em segundos, enterrei, sem direito a velório, o que havia me alimentado durante tantos anos. 

E num esforço sobre-humano, arranquei dali os meus pés plantados, com raízes profundas. 

Corri desesperadamente em busca de algum caminho, qualquer caminho, que me levasse essencialmente pra outro lugar.

De preferência um outro lugar longínquo, onde eu pudesse plantar novas mudas de sonhos. 

De repente, percebi, com uma pitada de felicidade, que um desejo escapou sorrateiramente das minhas mãos fatais: o desejo de ser feliz.

E ele era motivo suficiente para recomeçar...