1.3.10

Sobre o que restou...

"A vida vai seguir
Ninguém vai reparar
Aqui neste lugar
Eu acho que acabou"


Estava nublado, quando me percebi sozinha.

Em meio aos escombros, após os abalos sísmicos e o temporal, eu observava o tamanho do desastre. 

Não sei ao certo quanto tempo prendi minha atenção, concentrei meus esforços e direcionei minhas energias tentando reconstruir o meu pequeno castelo. 

E agora, perplexa, constatava que enquanto eu tentava insistentemente reconstruir o pequeno cômodo que cedia às intempéries da vida, o restante desmoronava inaudívelmente atrás de mim. 

Nada mais habitava aquele lugar. 

Fitei minhas mãos, precocemente inábeis, encobertas de pó. 

O jardim que outrora se apresentava suntuosamente ornamentado de amores-perfeitos, estava soterrado. 

As gargalhadas, trilha sonora original do meu reino, já havia silenciado. 

Nada mais restava fazer, não havia um só tijolo intacto.

Calmamente, me levantei e com cuidado indispensável procurava não pisar sob meus sonhos destroçados.

Flagrei-me desejando não possuir, naquele momento, olhos. 

De nada adiantou cerrá-los, as imagens haviam sido marcadas a ferro e fogo na minha alma fraturada. 

E me entristeci com a semelhança do meu coração com aquela paisagem.

Não pude conter as lágrimas tão necessárias, em que eu meticulosamente afogava todos os sonhos, todos os desejos, todas as lembranças e cada mera expectativas que agonizava lentamente dentro de mim. 

Estava feito. 

Em segundos, enterrei, sem direito a velório, o que havia me alimentado durante tantos anos. 

E num esforço sobre-humano, arranquei dali os meus pés plantados, com raízes profundas. 

Corri desesperadamente em busca de algum caminho, qualquer caminho, que me levasse essencialmente pra outro lugar.

De preferência um outro lugar longínquo, onde eu pudesse plantar novas mudas de sonhos. 

De repente, percebi, com uma pitada de felicidade, que um desejo escapou sorrateiramente das minhas mãos fatais: o desejo de ser feliz.

E ele era motivo suficiente para recomeçar...

2 comentários:

  1. Como sempre o dom das palavras traspõe o mundo real. Não existe somente sim ou não... você consegue trazer o sentimento do mais fundo da alma para a realidade com uma naturalidade desleal há algumas pessoas, aquelas que ficam inertes ao seu mundo e alienadas de tudo e de todos. Perfeito, mesmo porque já começa com Los Hermanos! Mas vamos olhar mesmo para frente?
    " É preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê" (Los Hermanos)

    Mil Beijos, Rê

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  2. Você resolveu transformar palavras em arte Lé!?

    Beijos, Sandra.

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