18.3.10

Boa Sorte.


"É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte
Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará"


Ela lhe desejou 'Boa Sorte'. 

Era o único desejo que restava em sua prateleira. 

Já havia desejado, mais do que deveria, os beijos, o abraço, o corpo, o toque, o olhar, o entrelace.

Embriagou-se com muitos frascos de um louco desejo pela ausência da presença dele nela. 

Ele rompeu as invisíveis cortinas da inércia e embalado pela reciprocidade, denunciou-se. 

Sem perceber deixou escapar pelos seus poros o desejo há muito contido. 

Sorrindo, Ele ofereceu-lhe um momento. 

Ela almejava por uma overdose. 

Novamente Ele ofereceu-lhe muito pouco, achando que era muito.

Talvez porque ignorava o muito que Ela pode e quis lhe oferecer um dia. Talvez nunca fosse capaz de corresponder a altura. 

Muitas vezes, Ela apostou suas fichas, na convicção de que Ele sentia mais do que deixava transparecer. 

Ainda portava a convicção , mas não tinha mais fichas. 

Ela sentiu a emoção da aposta. 

E Ele concentrou-se no sigilo de suas cartas e nas jogadas friamente calculadas.

Acabou sozinho no jogo.

Ela abandonou a mesa. Desejou-lhe 'Boa Sorte'. 

E Ele não percebeu, que a sorte a acompanhou quando Ela se levantou. 
Desta vez, p
rotegida pela certeza, não foi chicoteada pela dúvida. 

O sorriso ataviava novamente seu rosto. 

Não ganhou o jogo, mas carregou consigo a lembrança dos bons momentos. E isto bastava.

Aprendeu a digerir seus desejos com um certa destreza, uma rapidez alucinante. 

Mas aquele desejo de querer bem a Ele... Ah!....esse Ela não digeriu, incorporou.

Esse desejo navega diariamente por suas veias, com as velas hasteadas. 

É. Ela disse 'Boa Sorte'. 

Ele não compreendeu a magnitude de seu desejo.

Ela virou as costas, explorou novamente sua prateleira. 

E ali, no fundo, esquecido, jazia caído, conservando sua alta temperatura, um atraente frasco vermelho sangue...

Cuidadosamente, Ela resgatou o frasco. 

Era o desejo de que Ele segurasse sua mão e a pedisse pra ficar. 

Ele novamente não soube surpreende-la.

Ele virou as costas...esperando que Ela pousasse sobre seus ombros aquelas mãos que tanto sentiu falta.

Ela fechou os olhos e cerrou a porta obciamente.

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