16.12.09

Ela e o Tempo

"É você 
Só você
Que na vida vai comigo agora
Nós dois na floresta e no salão
Nada mais
Deita no meu peito e me devora
Na vida só resta seguir
Um risco, um passo, um gesto rio afora” 
(Tribalhistas)


Sempre foi fascinada pelo tempo.


Admirava a capacidade que ele tinha de ser tão atemporal.


Inveja a competência que ele tem pra passar.


Ficava atônita como ele se inscrevia nos detalhes de seu rosto.


Sempre travava batalhas com o tempo.


Enquanto ela tentava segurar os momentos, ele os usurpava dela fazendo-os passar.



Ela reabria as feridas como forma de se sentir viva, ele cicatrizava-os prontamente.


Enquanto ele se esforçava para limpar o ambiente para novas visitas, ela empenhava-se para recolher os fragmentos para guardar na caixinha vermelha da memória.


Ela se enfeitava com fitas para despertar paixões, ele corria rápido demais nesses momentos.


Quanto mais ela implorava para ele voar e secar suas lágrimas, mais lentamente andava e a observava.


Ele se irritava com a perícia que ela tinha de esquecê-lo.


Ela zombava com a possibilidade de caminhar sobre a linha da vida dele.


Ele enaltecia-se da sua independência.


Ela vangloriava-se de poder dividi-lo conforme suas vontades.


Ele surpreendia-se com a imprevisibilidade com que ela se vestia.


Ela criticava sua obsessividade pelo ritual.


Ele ria quando ela se projetava na sua frente na tentativa inútil de fazê-lo parar.


Ela sentia se superior por possuir amores, sorrisos, olhares, momentos e sabores, que ele na sua pressa costumeira esquecia para trás.


Ele suspirava pela surpresas da incerteza do caminho.


Ela cobiçava o poder de se saber para onde está indo.


Ironicamente precisavam um do outro.


Por vezes, ela precisava da calma, do passo calculado, da leveza, da invisibilidade, da indiferença, da independência, da parcialidade que só ele possuía.


Ele precisava, quase que diariamente, da paixão, da força, da doçura, da presença, do brilho, da impulsividade, da perseverança que ela abrigava tão ternamente em seu ser.


Num desse dias, sob um toque divino, se entreolharam.


Resolveram sem nada pronunciar darem as mãos e ficarem juntos, ora correndo, ora andando, ora levitando, ora arrastando, ora voando, ora com as pontas dos pés, mas sempre juntos.


Finalmente haviam percebido que a paisagem se tornava mais bela, quando compartilhada.


De vez em quando, eles ainda brigavam, mas nunca tiveram o desejo de soltarem as mãos um do outro

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