3.12.09

Como vai você?






“E agora penso que a estrada
Da vida tem ida e volta
Ninguém foge do destino
Esse trem que nos transporta”
(Alceu Valença)



Hoje um amigo, com quem geralmente troco sentimentos e que compartilho o olho mágico da porta da vida, me perguntou interessadíssimo “Como vai você?”
 
Falar sobre ele seria demasiadamente prazeroso, tanto quanto desnecessário, julgando pela raridade da pergunta. 

Foi um “Como vai você?” genuíno, com o mesmo interesse que a maioria das pessoas olha o saldo no banco.

Pressionada pela seriedade da pergunta, refleti, respirei e dei minha resposta:


- Sabe quando te oferecem o bolo mais delicioso do mundo (acho que pra mim isso seria   o petit gateau), e você só quer ficar sentando no meio fio, chupando cana-de-açúcar recém saída da geladeira num prato de alumínio, observando seus pés descalços sob a rua de calçamento, sem nenhum carro passando?Escutando o barulho das folhas que o vento balança no fim de tarde?

Ele sabia do que eu estava falando. Ele sempre sabe.

Estranho isso, enquanto muitos dariam tudo pelo melhor petit gateau, estavam me enfiando ele goela abaixo. 

E de tanto as pessoas desejarem aquele petit gateau, eu me senti que nem uma louca e me obrigava a querer comer aquele petit gateau.

O que eles não sabem é que eu já tinha experimentado o arco-íris de sabor que ele, só ele, trazia em si... e paguei um preço alto por ele. Sem resquícios de culpa, muito pelo contrário.

Mas agora eu quero é a sutileza do sabor da cana, aquele que traz paz pro coração, aquele que eu posso comer descalça, desnuda, ouvindo o concerto do vento...

Sinto-me confusa, incoerente, estranha e obsessiva. Mentalmente tento me convencer de que eu queria mesmo o Petit Gateau, mas minha boca saliva pela cana-de-açúcar.

E me vejo dividida, tendo que escolher entre eu e o resto do mundo...

Quando dou por mim, nem sei aonde é essa rua, onde está essa cana-de-açúcar, mas decido feliz da vida, que vou em busca dela.

Mesmo que eu não ache, alguma coisa hei de encontrar.

Não sei se respondi a pergunta do meu amigo...

De repente, interrompida nos meus devaneios analógicos, meu chefe me chama na sua mesa, olha pra mim, e antes de dizer o que precisa ele fala sorrindo:

    - Você está muito bonita hoje!

Desconsiderando o fato de ele ser um gentleman, volto sorrindo: eu sou reflexo do que trago na alma!

Um comentário:

  1. eu te entendo... não sei se o Petit Gateau é o melhor a se comer sempre... gosto das coisas simples, dos pés descalços e da alma sem maquiagem. gosto do sabor da cana e dos papos sem compromisso sentados no meio fio... também gosto de Petit Gateau, mas comendo todos os dias, não passaria de arroz e feijão, perdendo assim o gostoso da surpresa.

    ResponderExcluir