19.3.13

Luto de (por) mim mesma.



"Só por hoje eu não vou me machucar
Só por hoje eu não quero me esquecer

Que há algumas pouco vinte e quatro horas

Quase joguei minha vida inteira fora.

Não não não não

Viver é uma dádiva fatal,
No fim das contas ninguém sai vivo daqui"




Que a vida é uma grande peça de teatro, ninguém duvida.

O fato é que a gente passa a vida inteira entre o camarim e o palco, correndo entre papéis e histórias.

Já na estréia, somos protagonistas, responsáveis pela desenrolar lento e penoso que é viver. 

Somos filhos carregados de expectativas fadados a realizar muito do que foi renunciado pelos próprios pais.

Somos a esperança. 

Somos a página em branco, o inicio. 

Mas como todo ensaio, viramos rascunhos, rabiscados aqui e ali. 

Cortamos frases, personagens, pessoas, cenas. 

Comigo não foi diferente, hoje sou filha, mulher, psicóloga, tia, prima, sobrinha, amiga e amante. 

Sou vazio daquilo que fui e dos papéis que abandonei ou perdi.

Fui irmã. 

Passado Morto. 

Alma amputada.

Não espero que as pessoas entendam o que se passa, eu mesma ainda não consigo entender.

E a realidade se impõe impassível e fria.

Eu fui destruída, demolida.

Agora vago por entre os escombros na tentativa insana de construir o desconstruído.

Eu sangrei sozinha.

A agonia lenta de sentir o sangue se esvaindo, o coração pulsando para fora o pouco do sangue que ainda restava. 

Eu senti cada facada, absorvi cada golpe, senti minha carne dilacerando expondo os órgãos vitais.

Descobri que a alma se metaforiza em corpo, ela sangra, dói, agoniza e morre.

Não houve luta. 

Não deu tempo de fugir. 

E foi assim, que essa parte de mim se foi.

Eu mudei. A vida mudou. Tudo mudou.

Hoje sigo nessa ponte sem guarda-corpo, me equilibrando sozinha.

Não escuto mais a poesia da vida, vou seguindo, fazendo o possível com o que restou de mim. 

Hoje o meu sorriso é triste.

Vivo numa constante apatia, no automático. 

Sendo guiada pela sobrevivência ao invés do amor. 
Sei também que tudo isso passa. 

Afinal, tudo passa. 

Foi difícil chegar até aqui. 

Foi difícil abandonar o cadáver. 

“Pra tudo tem jeito, só não tem jeito pra morte” – já dizia minha vó, na sua costumeira sabedoria.

Não teve alternativa a não ser aceitar, velar e enterrar a Irmã que um dia eu fui.

Hoje, sigo a vida com essa verdade imutável.

Ali, num dia ameno de Outubro, eu dei o último suspiro. 

Desliguei os aparelhos que mantinham viva a Irmã que desempenhei uma vida inteira.

E desde então, deixei de sentir qualquer coisa relevante.

Meu sorriso já não esboça a mesma graça. 

O brilho nos olhos deu lugar a um olhar opaco, realista e sofrido.

Um pedaço de mim é deserto.

Estou vestida de preto.

Morreu algo em mim que era belo, muito belo. 

E, de repente, não sei o que fazer...

Não há ressurreição, não há volta.

Estou vivendo um luto lento aqui dentro.

É complicado aceitar que algumas coisas que deveriam ser eternas, se fidam.

Mas ainda há muita vida aqui dentro. 

O meu combustível ainda é o amor.

Tenho ainda muito que realizar, tenho papéis a conquistar...

Sei que esse vazio, essa ausência de mim mesma, vai me acompanhar pra sempre.

Sei também que essa cratera vai se calcificar dentro de mim. 

A cicatriz do corte vai ficar impressa eternamente na minha alma.

Mas de tudo, sei que ela não vai me impedir de chegar aonde eu desejo, de ser feliz com aquilo que ainda resta em mim.

O Luto vai passar. 

O vazio vai se acomodar.

E no fim, compreender que na vida, só se pode contar consigo mesmo. 

E eu não vou, não posso desistir de mim. 

Isso tudo vai passar e eu vou voltar a estampar no rosto o sorriso que tanto me orgulho. 

Porque no fundo eu sei, não existe sensação melhor que se aconchegar em abraços sem fim, carregados de amor, e neste momento, ter a certeza de que tudo vale a pena se você souber amar.

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