Não houve luta.
Não deu tempo de fugir.
E foi assim, que essa parte de mim se foi.
Eu mudei. A vida mudou. Tudo mudou.
Hoje sigo nessa ponte sem guarda-corpo, me equilibrando sozinha.
Não escuto mais a poesia da vida, vou seguindo, fazendo o possível com o que restou de mim.
Hoje o meu sorriso é triste.
Vivo numa constante apatia, no automático.
Sendo guiada pela sobrevivência ao invés do amor.
Afinal, tudo passa.
Foi difícil chegar até aqui.
Foi difícil abandonar o cadáver.
“Pra tudo tem jeito, só não tem jeito pra morte” – já dizia minha vó, na sua costumeira sabedoria.
Não teve alternativa a não ser aceitar, velar e enterrar a Irmã que um dia eu fui.
Hoje, sigo a vida com essa verdade imutável.
Ali, num dia ameno de Outubro, eu dei o último suspiro.
Desliguei os aparelhos que mantinham viva a Irmã que desempenhei uma vida inteira.
E desde então, deixei de sentir qualquer coisa relevante.
Meu sorriso já não esboça a mesma graça.
O brilho nos olhos deu lugar a um olhar opaco, realista e sofrido.
Um pedaço de mim é deserto.
Estou vestida de preto.
Morreu algo em mim que era belo, muito belo.
E, de repente, não sei o que fazer...
Não há ressurreição, não há volta.
Estou vivendo um luto lento aqui dentro.
É complicado aceitar que algumas coisas que deveriam ser eternas, se fidam.
Mas ainda há muita vida aqui dentro.
O meu combustível ainda é o amor.
Tenho ainda muito que realizar, tenho papéis a conquistar...
Sei que esse vazio, essa ausência de mim mesma, vai me acompanhar pra sempre.
Sei também que essa cratera vai se calcificar dentro de mim.
A cicatriz do corte vai ficar impressa eternamente na minha alma.
Mas de tudo, sei que ela não vai me impedir de chegar aonde eu desejo, de ser feliz com aquilo que ainda resta em mim.
O Luto vai passar.
O vazio vai se acomodar.
E no fim, compreender que na vida, só se pode contar consigo mesmo.
E eu não vou, não posso desistir de mim.
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